Em edição ampliada de "Cole Porter – Canções, Versões – Que De-lindo", o tradutor recria em português a sofisticação, a musicalidade e o humor das letras do compositor norte-americano.
Texto de apresentação editorial baseado no artigo de Marcelo Tápia publicado na Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, em 10 de outubro de 2026.
Compositor fundamental da música popular norte-americana, Cole Porter (1891–1964) construiu canções conhecidas não apenas por suas melodias, mas também pela sofisticação das letras. Jogos de palavras, rimas inesperadas, repetições sonoras e imagens engenhosas fazem de sua obra um desafio especial para quem deseja traduzi-la.
É nesse território que se desenvolve o trabalho de Carlos Rennó. Em uma edição ampliada de seu projeto de versões, publicado originalmente em 1991, o tradutor busca recriar em português os efeitos poéticos das canções, preservando, sempre que possível, a relação entre significado, ritmo, som e melodia.
A tradução de letras como as de Porter exige mais do que encontrar equivalentes para cada palavra. É preciso considerar a sonoridade, a métrica, as rimas e a maneira como esses elementos se articulam à música. Por isso, o trabalho de Rennó se aproxima da ideia de transposição criativa: em vez de reproduzir literalmente o original, procura construir, em outra língua, uma experiência poética capaz de produzir efeitos semelhantes.
Um exemplo é a recriação de “Begin the Beguine” como “Retine o beguine”. A solução procura recuperar relações sonoras do título original e acrescenta a ideia de ressonância, aproximando o jogo verbal da própria experiência de ouvir música. O resultado evidencia como uma versão pode se afastar da correspondência literal para preservar parte da invenção do original.
Ao longo das canções, Porter explora rimas raras e triviais, aproximações entre palavras e repetições que desafiam a tradução. Rennó responde a esses desafios com soluções que buscam manter a fluidez e a musicalidade em português. O trabalho inclui diferentes variantes para algumas letras, mostrando que a tradução poética é um processo de pesquisa contínua, no qual uma solução pode ser revista em busca de novos resultados.
A expressão “Que De-lindo”, que dá título ao livro, nasce justamente desse esforço de recriar um jogo verbal. A versão procura estabelecer uma relação sonora com o refrão em inglês e manter o caráter lúdico da composição. Nesse processo, a língua portuguesa deixa de ser apenas o destino da tradução e passa a oferecer recursos próprios para renovar a canção.
A recriação não se limita aos sons e às formas. Em algumas canções, Rennó também adapta situações e referências para aproximá-las do contexto brasileiro contemporâneo. Em “Fiel a Você à Minha Moda”, versão de “Always True to You in My Fashion”, por exemplo, o tradutor explica que reambientou as situações da letra no Brasil atual.
Essa atualização abre espaço para referências sociais e políticas brasileiras, sem abandonar o humor e a ironia característicos de Porter. As versões podem, assim, dialogar com temas como poder econômico, desigualdade e distanciamento das elites em relação à realidade cotidiana. A recriação mantém a irreverência do compositor e, ao mesmo tempo, cria novas possibilidades de leitura.
O trabalho de Carlos Rennó dialoga com reflexões sobre tradução poética associadas a Haroldo de Campos: traduzir poesia envolve recriar não apenas o conteúdo, mas também sua forma, sua sonoridade e sua força imaginativa. No caso das letras de Cole Porter, isso significa produzir versões que possam ser compreendidas e cantadas em português, sem perder a inventividade que marca os originais.
Entre os exemplos lembrados está “Façamos (Vamos Amar)”, versão de “Let’s Do It (Let’s Fall in Love)”, conhecida nas interpretações de Chico Buarque e Elza Soares. A canção mostra como a recriação pode conservar a brincadeira verbal e a energia do original, ao mesmo tempo que ganha vida própria na língua portuguesa.

O crítico Marcelo Tápia analisa o trabalho de Carlos Rennó no artigo “Cole Porter renasce em toda sua grandeza em versões de Carlos Rennó”, publicado na Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, em 10 de outubro de 2026. Consulte a publicação original para ler a crítica completa.
Nota editorial: Este texto é uma apresentação editorial baseada nos temas discutidos na crítica de Marcelo Tápia. Não é uma transcrição nem uma reprodução integral do artigo original.